Archive for the ‘Eu não faço sentido’ Category

Não Tão Trágico.

junho 30, 2010

A fumaça que sai dos carros entrelaçados dessa esquina da minha vida promete mais do que o espetáculo cumpre: já assisti a eventos piores. Os motoristas, há tempos já tiveram alta em seus hospitais. Exibo em meu torso parcos arranhões que acidentam o toque da pele, mas essa brusca interrupção de movimento acabou por me privar apenas daquelas preocupações bestas de outrora, que me tiravam o foco e entortavam o caminho. O caminho segue errante e irregular, mas dessa vez os passos são só meus. Sim, livre.

No entanto, essa mesma liberdade acaba nos amarrando a uma intensa e incessante necessidade de ter antigas sensações, gozar de prazeres que antes nos eram rotineiros. Quando menos percebemos, já estamos novamente atando o nó do nosso barco em algum outro cais. De novo?

Isso é normal.

Em algum determinado grau, somos meros neurônios de um corpo imensamente maior, esperando por uma faísca que nos conecte. Afirmo que estamos sempre, mesmo que imperceptivelmente, procurando conexões. É instintivo dividir sensações, compartilhar momentos, comungar histórias com outras pessoas. O único período em que sentimos dor é o momento em que estamos no vácuo de uma transição de histórias. A última página do capítulo parece pesar uma tonelada, às vezes, mas ela precisa ser virada a qualquer custo, e um outro par de mãos pode ajudar nessa tarefa. Uma vez novamente ligados, a dor se dissipa como a fumaça que esconde as ferragens do acidente. Estamos respirando, e evoluindo.

A gente sai de cena com as roupas rasgadas, bolsos vazios e a mente confusa, sem saber como fomos parar ali. Mas e se pudéssemos jogar todos os livros fora e carregar conosco apenas a página do agora? É tão comum a gente se apegar ao passado e viver numa réplica dele, na ilusão de que estamos andando pra frente… no entanto, se tivéssemos realmente sido felizes no processo, jamais teríamos mudado. Então a gente muda. Mas o problema é que a gente muda sentindo medo demais. A gente navega perto da costa, esquecendo-se de que poderia ser bom perder o horizonte, seguir a vontade da corrente e atracar na próxima ilha. Por mais que ela demore a surgir no infinito, ela é nova, e a gente chegou lá sem bússola.

Antes de ligar para a emergência, esperei para ver através da fumaça o que realmente acontecera. Um acidente, embora não tão trágico. Um espasmo de vida em um coração que parecia padecer em estado vegetativo. O trânsito voltou ao normal, e eu voltei pra casa, graças a uma carona que eu queria que tivesse durado alguns minutos a mais.

Só lembro do rosto através do vidro quebrado. Esquecer? Não consigo. Repensar? Não quero. Reviver? Não aguento. Roteiro pros próximos capítulos? Não tenho.

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Johannes Beeshop e a Síndrome do F5.

abril 20, 2010

Existe uma estrada sob os meus pés. Ela termina toda vez que chego em casa, tarde da noite. O que vejo após a derradeira parada, é o fim desse chão. Se eu prosseguir em minha caminhada, ignorando quaisquer placas de sinalização e advertências verbais de amigos, sou engolido por esse infinito precipício.

E eu não paro.

A queda, até o momento, não parece ruim, embora eu não negue que me incomoda não saber quando me chocarei com o chão. O ar, utilizei todo ele na tentativa de gritar. Ninguém ouve. Não daqui, onde estou. Eu poderia ficar sentado à borda desse penhasco, observando todos os que, caminhando ao meu lado, decidiram encerrar ali suas jornadas. Desobedeço… sempre. E, uma vez sem ar, resta a mim conferir se me calarei com o impacto ou por apneia. Ansiedade?

E eu não paro.

E quem tentou me seguir ficou pelo caminho, por medo de um ou outro precipício. “O que é que tem ali?”. Antes de me fazer essa pergunta, já me encontro lá.

Alguém me faz parar de apertar o F5. Alguém nada, TU.

Às vezes acho que me fizeram capaz de sentir demais. E emanar demais o que é sentido, inclusive quando não faz sentido. E isso assusta, afugenta, por chamar atenção demais. Meus pensamentos são como um farol que não consegue se esconder na praia deserta. Ele sempre estará lá, ao alcance dos teus olhos, te impedindo de naufragar em mim. E não há nada capaz de me apagar.

Só queria, por meia-hora que fosse, me ver diluído no horizonte de uma noite qualquer. Uma dessas em que tu vagas por aí sozinha, trocando pernas, balbuciando impropérios ao vento. E ter o que eu sinto invisível aos teus olhos. Por meia-hora que fosse, te fazer me querer sentir na meia-hora seguinte.

Essa intensidade indesejada de sentimentos atribui imenso valor até mesmo ao mais insuspeito dos teus sinais. E isso, às vezes, torna-se tão pesado a ponto me fazer preferir a sensação de ausência de peso inerente à queda à falsa-segurança da terra firme. Meus joelhos doem, guria, e é por essas e outras é que me atrai tanto o ensurdecedor silêncio do vento frio me cortando a pele. Pelo menos, enquanto caio, tenho certeza de que não me ouves.

Quase sempre eu penso que deveria parar de agir assim.

E eu não paro. Me para.

O Novo.

abril 12, 2010

A gente acha que, por já ter jogado uma ou duas vezes, pega experiência. PAPO.

Mais uma cidade. Novo ar. Uma casa nova, no mesmo lugar. No entanto, acumulam-se teias de aranha naqueles cantos da nossa alma que a gente tem medo de mexer. Sempre tive medo de mudar a ponto de não me reconhecer em escritos antigos, espelhos empoeirados. Então eu volto ao estado inicial, aquele de anos atrás. A gente sempre acaba voltando pro cassino. Mas o jogo é outro, mais difícil, imprevisível e com uma aposta mínima que a gente simplesmente não tem como pagar. É o mundo ensinando a gente que ainda não deixamos de ser os adolescentes cheios de dúvidas que éramos. A diferença é que somos maiores que outrora, e em nossas cabeças há ainda mais espaço para mais e mais questionamentos. Quanto mais claro fica para mim a noção do que é certo, mais meus pés apontam para o obscuro caminho do absolutamente desconhecido.

Não posso dizer que não gosto. Mas também não direi que tem sido simples. E o que é simples, aos vinte-e-tantos anos?

A gente se sente velho demais para jogar tudo pra cima e fugir. A gente se vê jovem demais pra dar o próximo passo sem olhar pra trás. Então a gente fecha os olhos e caminha até cair. A cada vez que ergo meu corpo, percebo nos pés descalços a textura de um novo chão, na pele o toque de um vento que vem de outro lugar, e que traz consigo outros aromas. Um deles, em especial, me captura o olfato, prendendo-me numa não-intencional caçada sem espingarda em punhos. É o momento em que meu peito pode ser perfurado pela mais insignificante flecha de papel.

* Na mosca, guria. Na mosca.

É sua, aquela silhueta turva dois quarteirões adiante?

Por quê sozinha?

Seria apenas na minha cabeça?

Tenho acordado de sonho nenhum, tenho dormido apenas pra ver se paro de sonhar…

… pra variar.

E é tão real, o pesadelo de perder o discernimento pra sempre.

Mais uma cidade. Novo ar. Uma casa nova, no mesmo lugar.

O que eu aprendi com o amor? Palavrões novos.

O Equilíbrio na Agulha.

janeiro 18, 2010

Eu já caí, de tanto olhar pro céu. O que me protegeu de espalhar minha cabeça pelo meio-fio da calçada foi o fato de eu sempre andar no meio da rua. Os carros que vêm na minha direção não passam de velozes e barulhentos fantasmas que meus inimigos vivem inventando para me testar. Eles conhecem meus medos melhor do que eu.

Eu já me perdi, de tanto olhar pros lados. O que me fez chegar onde estou foi a companhia desejada das pessoas que me são mais importantes, jamais permitindo que eu entalhasse na areia pegadas solitárias. Encontrei caminho e refúgio nas esquinas que a multidão esqueceu de ver, enquanto tentava trazer o horizonte pra mais perto. O tempo passa sozinho, e não há nada que possamos fazer para assumir seu controle.

Eu já petrifiquei minhas pernas, de tanto viver o passado. Minhas amarras foram soltas pelo súbito empurrão que você me deu. Me dóem os pés, dor essa que ignoro toda vez que minhas solas encontram novo chão. Os fantasmas, de repente, somem, e a estrada dos meus dias se desenrola em minha frente como um tapete vermelho. Basta que haja equilíbrio. E esse equilíbrio não se dá de olhos fechados, muito menos se olhando por onde anda.

Enxergo o auge da minha vida como o equilíbrio na agulha. Qualquer passo descuidado trará o chão para um brusco encontro com a minha face distraída. Não sei o meu próximo passo, mas vivo meus dias e noites em função de fazer com que os meus pés toquem sempre o caminho que eu construí.

A gente faz o nosso caminho, e é normal que ele seja estreito e sinuoso. Ninguém consegue andar em linha reta por muito tempo.

Atendendo a Pedidos (ou “O Ornitorrinco Que Passeia Por Mim”).

dezembro 26, 2009

A pedido da minha alma. De um bichinho de unhas grandes que vaga por minhas entranhas de uma forma que, por mais que eu tente, não consigo manter-me indiferente. Ele quer voltar a sair. Sente saudade dos pares de olhos que encontrou durante anos, dentro de quartos tão ou mais escuros do que esse que me acolhe. Quer ir pra rua, de novo, o ornitorrinco.

A pedido das palavras que, presas entre os dentes e a língua, são privadas da reverberação pelo ar. Atendendo ao clamor dos pensamentos que, cansados de ricochetear no pequeno vestíbulo ao qual mantenho-os confinados, ora por medo, ora por preguiça, ou então sem motivo aparente, aqui escrevo.

Obedecendo a ordem que meu coração me deu de voltar a escrever sem métrica, tempo ou medida, sem melodia, sem ritmo nem rima, aqui e agora, eu volto a borrifar ao vento os sentimentos que não consigo cantar.

Atendendo a pedidos, cá estou. Volte sempre.